sábado, 3 de dezembro de 2011

Hoje


essa monotonia
que me escapa
vazia
atravessa as noites
alcança os dias
se lança afiada
covarde
vadia

Tadeu Melo

domingo, 19 de junho de 2011

Impressões sobre a Marcha da Liberdade de Expressão e Direitos Humanos. Rio Branco, Acre, 18 de junho de 2011

Índios, brancos, negros, gays, profissionais, estudantes e principalmente: gente comum. Esse foi o público da primeira #Marcha acreana.
Nosso Estado possui um histórico de resistência, de lutas pelos seus ideais. Esse povo que veio da mata, que canta ciranda e que fala com a terra , têm uma característica: aprende ligeiro. Mães com seus filhos no colo, donas de casa que largaram a bacia de roupa, trabalhadores que pediram licença do emprego. Este foi o público que foi às ruas de Rio Branco para dizer que não esta satisfeito.
Mas o que incomoda essa gente?
A insatisfação nasce da censura, que dita quais filmes “nossas” crianças podem ou não assistir nas escolas. Mas esta mesma censura não se esmera em frear a banalização do corpo que entra pela televisão em suas casas. Não se esforça para inibir letras de músicas que discriminam que humilham e diminuem inclusive o próprio grupo que produz a censura. Esta se preocupa com um beijo entre meninos em uma obra de arte, mas não liga muito para o beijo das meninas que se encolhem nas esquinas a espera do novo cliente.
O descontentamento da #Marcha veio pelo desrespeito às minorias, que juntas formam uma multidão, que sentem na pele os efeitos da política feita pelos acordos de bastidores e não pelo mérito da questão. Esses políticos que convocam gestores para explicar suas ideias, mas nem cogitam a possibilidade de justificar as suas.
A caminhada foi guiada por estudantes que querem ter voz, querem falar o que pensam e pensar sobre o falam. Esta geração que, felizmente, não sofreu com a opressão do regime militar, mas consegue pressentir o fantasma (já materializado) do fundamentalismo que assombra os sonhos da democracia.
Em menos de uma hora de passeata vimos os olhares da população, que de início não sabia do que se tratava, mas logo se identificou com a palavra liberdade, e parava na calçada para ver tanta gente diferente misturada.
Vimos na #Marcha também à falta de respeito, a tentativa de inferiorizar para desmoralizar. Esse movimento foi e será um momento especial, onde cada cidadã e cidadão acreano puderam sair às ruas e gritar sua indignação, mostrando que independe do poder estabelecido, o povo sempre vai se manifestar.
Não podemos deixar passar o fato de que “no meio da #Marcha tinha uma obra”, que oportunamente bloqueava a visão de quem passava em frente ao palácio e que nossos “marchantes” foram recebidos com balde e água de sabão nas escadarias deste símbolo do poder. Vale lembrar que há poucos dias teve outra marcha e esta foi recebida com bodas pelos nossos governantes. 
Apesar de tudo isso, estávamos lá, de pé, erguendo as faixas e cartazes que foram produzidos como devem ser: sem um único centavo do poder público!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Pura verdade

é amor
de coisa pouca
passageiro
que enche os olhos
por hora inteira
é para sempre
tempo curto
esse intervalo
entre o interesse e desinteresse
que me faz te amar
por vários e vários
segundos

domingo, 13 de março de 2011

Necessário

quero criar
que seja uma asa ou o avião
uma pedra ou continente
um dia ou mês inteiro
um sorriso ou a felicidade
um pão ou o jantar
isso ou aquilo
só preciso fazer
seja o que for
onde for
e pra quem quiser

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

meandros

é só a noite  caindo
em gotas escuras
manchando o rosto
rio negro que sozinho
desvia rugas
encontra caminhos
escorrega
até a represa
 mãos violentas
barreiras ao pranto
buscando acalanto
empatando o rio

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Sobre o tempo e as coisas

há aquelas que resistem
Joanas a fogueira
desdenham da ampulheta
criança levada
rotineira
empurra as dores
sempre à frente
desgastando os cantos com atrito
apito
ranger
peso dos anos
amontoar de coisas
velharias novas
redescoberta como inúteis que são
empilham
ocupando espaços
desgastam
matando o tempo

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Sons e barulhos esquisitos

São os pedaços desintegrados
pela integridade torta
que te guia
noite e dia
rumo as esquinas
guetos e botecos
curando a dor de amor com mais amores
ouvindo rumores
de dias felizes
em altares floridos
e arroz no véu

Labirinto nº 2

É esse começo
que se inaugura
já fenecendo
e me deixa aqui
boquiaberto
a olhar pra vida
como uma vitrine velha
fora de moda
fora de mim
fora de mão

Afago

Preciso sentir
as aspereza da tua mão
para derreter
como um caramelo sobre a língua
escorregadio e doce
icaro almejando o céu
da tua boca
voando
e sorvendo tua língua
tropeçando em papilas açucaradas
que se confundem com as minhas
até que a morte as separe

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Minotauro

Acorrentado a própria cabeça
Minotauro de vida curta

enroscado ao novelo
sem saber onde ir

brincando de esconder
em seu velho labirinto

Um canto de paz na Terra (A Mercedes Sosa)


Essa voz
que corta as fronteiras
e entoa o canto do sossego
esse sussurro que a todos desperta
com sua força e leveza
e nos diz que o melhor caminho
deve ser trilhado aos pares

flor, semente e fruto
instantes da mesma vida
que prosperam ao mesmo passo
 embalados por essa cantiga inebriante
e bela

mesmo na noite mais escura
ou no dia mais frio
esse canto não desiste
não cala
e continua
a lançar a paz sobre terra

Mau audição

O som oco
desse coração de gesso
pálido e morto
aos poucos

pintado a seco
em horas frias
que nada dizem
a quem lhe implora respostas
nesse abismo ludibriante
que atrai
e trai a moça
e deflora-a

Formigueiro

Perdido na rua que todo dia cruza
olhando os outros como os estranhos que são
formigas atônitas perseguindo o açúcar
tropeçando em si mesmo
a todo instante
a todo vapor

Homo hipocritus (inacabado)

Dissimulado a qualquer hora
apedrejando os que lhe copiam
por gozarem do prazer
que mais lhe apetece
e esquece que lhe despontam as feiúras
torce o nariz e escarnece seu passado
esconde os defeitos como leão enterra a presa
com jugular exposta
nua

Bolha de vento

É barulho de água
rolando da nuvem
navegada pelo vento
que ao meio dia se esquece da vida
feito crocodilo amigo de passarinho
fica lá, quieto
quietinho
esperando a brisa passar
para levantar a saia da menina
que toda meiga
fascina
com o beijo roubado
pelo levado vento

 leve

Autofagia

fome que remove a alma
atropela a vergonha e a dor
 mata a sensação incomoda
com um naco do próprio peito

Caminhada

o escuro que se move
em mim
por mim
tinge as paredes da tarde
despedaça as cores alegres
e domina
o dia que não se vai
e fica
insistente
feito lembranças de dias felizes

Hoje em dia

o vento que castiga minha tarde
esgota meu peito
lapida minha sorte
assobia em minha alma
e deixa o medo
forte imperador
austero e sombrio
passeando pelos porões
que se fecham a passagem do vento

domingo, 30 de janeiro de 2011

Trivial

do crânio oco
escuro
frio
brota a última idéia
dilacera ossos
rasga tecidos
rouba o ar
escapando pelos ouvidos
derrama-se pelos olhos
fugiu...

Clara evidência

deitada no chão
com o pé do ladrão em seu pescoço
ela decidiu não mais perdoar o próximo

A última fronteira

e quando o silêncio habitou
absoluto em sua alma
ele entendeu
que não podia mais amar

O cortejo

Sempre acontece em dia de chuva e trovoada. É dia de choro
O sonho é cortejado por duendes e elfos.
O caixão, que não é lá muito grande, é puxado por fortes unicórnios, guiado por tristes sátiros.
Fadas carpideiras choram pedrinhas de cristal sobre o cadáver inerte do sonho.
Borboletas desmaiam a passagem do funeral, formando um tapete colorido e soluçante a beira do caminho.
Bruxas e demônios riem a frouxas gargalhadas, enquanto Gaia abre sua enorme boca para receber o sonho.
Ele será enterrado a sete polegadas.
E seu dono nem sabe onde ele foi parar.
Todos se despendem do pobrezinho, que nasceu de uma barrigada grande da esperança, mas morreu sozinho.
Ninguém se preocupa em jogar flores no túmulo.
Chão que se enterra sonho é terra fértil
Lá nascerão orquídeas, margaridas e begônias.
E ninguém vai acreditar se eu contar, que aquele jardim no fundo do quintal é a cova de um jovem sonho.

Gêneses

e o espírito nasceu
entre explosões cósmicas
no diafragma do universo
dilatando as galáxias
fugindo
por entre as pernas da nebulosa
e como pirilampo atordoado
vaga pela escuridão fria
por anos e anos
luz
acerta cego
o peito do recém nascido