segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Minotauro

Acorrentado a própria cabeça
Minotauro de vida curta

enroscado ao novelo
sem saber onde ir

brincando de esconder
em seu velho labirinto

Um canto de paz na Terra (A Mercedes Sosa)


Essa voz
que corta as fronteiras
e entoa o canto do sossego
esse sussurro que a todos desperta
com sua força e leveza
e nos diz que o melhor caminho
deve ser trilhado aos pares

flor, semente e fruto
instantes da mesma vida
que prosperam ao mesmo passo
 embalados por essa cantiga inebriante
e bela

mesmo na noite mais escura
ou no dia mais frio
esse canto não desiste
não cala
e continua
a lançar a paz sobre terra

Mau audição

O som oco
desse coração de gesso
pálido e morto
aos poucos

pintado a seco
em horas frias
que nada dizem
a quem lhe implora respostas
nesse abismo ludibriante
que atrai
e trai a moça
e deflora-a

Formigueiro

Perdido na rua que todo dia cruza
olhando os outros como os estranhos que são
formigas atônitas perseguindo o açúcar
tropeçando em si mesmo
a todo instante
a todo vapor

Homo hipocritus (inacabado)

Dissimulado a qualquer hora
apedrejando os que lhe copiam
por gozarem do prazer
que mais lhe apetece
e esquece que lhe despontam as feiúras
torce o nariz e escarnece seu passado
esconde os defeitos como leão enterra a presa
com jugular exposta
nua

Bolha de vento

É barulho de água
rolando da nuvem
navegada pelo vento
que ao meio dia se esquece da vida
feito crocodilo amigo de passarinho
fica lá, quieto
quietinho
esperando a brisa passar
para levantar a saia da menina
que toda meiga
fascina
com o beijo roubado
pelo levado vento

 leve

Autofagia

fome que remove a alma
atropela a vergonha e a dor
 mata a sensação incomoda
com um naco do próprio peito

Caminhada

o escuro que se move
em mim
por mim
tinge as paredes da tarde
despedaça as cores alegres
e domina
o dia que não se vai
e fica
insistente
feito lembranças de dias felizes

Hoje em dia

o vento que castiga minha tarde
esgota meu peito
lapida minha sorte
assobia em minha alma
e deixa o medo
forte imperador
austero e sombrio
passeando pelos porões
que se fecham a passagem do vento

domingo, 30 de janeiro de 2011

Trivial

do crânio oco
escuro
frio
brota a última idéia
dilacera ossos
rasga tecidos
rouba o ar
escapando pelos ouvidos
derrama-se pelos olhos
fugiu...

Clara evidência

deitada no chão
com o pé do ladrão em seu pescoço
ela decidiu não mais perdoar o próximo

A última fronteira

e quando o silêncio habitou
absoluto em sua alma
ele entendeu
que não podia mais amar

O cortejo

Sempre acontece em dia de chuva e trovoada. É dia de choro
O sonho é cortejado por duendes e elfos.
O caixão, que não é lá muito grande, é puxado por fortes unicórnios, guiado por tristes sátiros.
Fadas carpideiras choram pedrinhas de cristal sobre o cadáver inerte do sonho.
Borboletas desmaiam a passagem do funeral, formando um tapete colorido e soluçante a beira do caminho.
Bruxas e demônios riem a frouxas gargalhadas, enquanto Gaia abre sua enorme boca para receber o sonho.
Ele será enterrado a sete polegadas.
E seu dono nem sabe onde ele foi parar.
Todos se despendem do pobrezinho, que nasceu de uma barrigada grande da esperança, mas morreu sozinho.
Ninguém se preocupa em jogar flores no túmulo.
Chão que se enterra sonho é terra fértil
Lá nascerão orquídeas, margaridas e begônias.
E ninguém vai acreditar se eu contar, que aquele jardim no fundo do quintal é a cova de um jovem sonho.

Gêneses

e o espírito nasceu
entre explosões cósmicas
no diafragma do universo
dilatando as galáxias
fugindo
por entre as pernas da nebulosa
e como pirilampo atordoado
vaga pela escuridão fria
por anos e anos
luz
acerta cego
o peito do recém nascido